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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Como anda a nossa relação com meio ambiente?


Nunca o presente e o imediatismo temporal e espacial foram tão valorizados na sociedade humana. Neste contexto, para se ter uma satisfação pessoal plena, os seres humanos baseiam-se na posse material. Não é à toa, já que o verbo “consumir” está presente em praticamente por todos os lados, em todos os meios publicitários, e camuflado nas tendências de moda. E não basta consumir algumas vezes, é necessário “ter” sempre mais do novo, o mais moderno, para “ser” uma pessoa satisfeita e aceita pelos outros. O referencial das nossas crenças e valores deixou de ser o sentimental e espiritual para dar lugar ao financeiro e econômico, permeados pela competição. Nossas relações com outros seres humanos e com os não seres humanos refletem a atual visão de mundo, pois não somos apenas antropocêntricos[1], como também consideramos o outro como inferior a partir de identidade, gênero, raça e poder aquisitivo.
            Neste mundo antropocêntrico, a decisão do que fazer com um ser não-humano é sempre conseqüência da pergunta: serve para quê? Um caso sério de ética utilitarista, no qual um “não” como resposta significa não-valor, portanto. Um exemplo clássico, como seres solitários que somos, é quando cuidamos de um cachorro ou um gatinho porque eles nos fazem companhia e correspondem à nossa atenção com um amor incondicional. Caso não sirvam mais para companhia, ou caso tenhamos outras prioridades, é comum que eles sejam cruelmente abandonados à própria sorte pois, como animais domesticados, não sabem viver sozinhos, ou não possuem condições naturais para tanto.
            Outro exemplo é quando mudamos a dieta comum, que gira ao redor do consumo excessivo de carne, para uma dieta vegetariana[2]. No fundo, a intenção é egoísta, já que ciência afirma que comer carne pode ser danoso à nossa saúde. Além de desconsiderar o valor intrínseco dos pobres e subjugados animais, a nobre ciência ainda os classifica por cores, sendo que a carne “vermelha” deve ser evitada e a “branca”, esta sim, deve ser consumida em larga escala. Esta parece ser mais uma tentativa de amenizar a consciência dos ávidos carnívoros, afinal, o termo “branca” nos dá a impressão de ser uma carne com menos sangue, e até com menos vida e causa menos sofrimento ao ser “produzida”.
            A ideia de que nós, como seres do topo da cadeia alimentar, somos naturalmente carnívoros, não é natural, e sim construída sócio-historicamente. O argumento de que ninguém deve se abster da carne, pois afinal, nós só evoluímos[3] devido a ela, está presente no discurso dos cientistas. O problema é que a ciência é vista como neutra, quando na verdade existem relações de poder ali presentes, que levam a determinados interesses por trás de cada simples ação. Nossa cultura cientificista ainda denomina de “atrasadas” todas as outras formas de saber, tornando o discurso científico o único discurso legítimo.
As visões de mundo mudam através do tempo, em que cada contexto é diferente. Hoje, nosso contexto está diretamente associado ao capitalismo. Além do consumo, citado anteriormente, temos a indústria farmacêutica com seus produtos de baixo custo e fácil acesso – quando supostamente não deveríamos realizar a famigerada automedicação – que desmotivam cada vez mais a prevenção; a indústria alimentícia, dominada por uns poucos que acumulam muito dinheiro, com seu aprisionamento e morte de animais e largo uso de agrotóxicos; a indústria petrolífera; e assim por diante.
Com tudo isso, “a natureza deixou de ser um recurso vivo para se tornar um conjunto de recursos”. Como parte da natureza, nós, homens, também não ficamos de fora, já fomos até explicitamente chamados de “recursos humanos” pelo meio empresarial. Como recurso, apenas os elementos da natureza que “servem” para alguma coisa merecem genuinamente ser preservados. E o resto? O resto pode ser descartado ou simplesmente ignorado.
A educação vem atuando na sociedade como uma instituição que reproduz e reforça as visões de mundo dominantes que nela atuam. E não apenas o lado com relação ao meio ambiente é prejudicado. O universo cultural das nossas escolas e das nossas casas é profundamente perturbado. A educação deveria desenvolver não só o lado crítico e questionador dos indivíduos, mas também o lado criativo. Nietzsche, como grande filósofo da educação, dizia ser a criação a grande motivadora da vida. A vida todos os sentidos deveria ser o nosso grande objetivo, ao invés da busca pela produtividade, pois só o novo nos faz pensar – e não a mera reprodução de métodos e atitudes históricas – e repensar nossas atitudes e nossa visão de mundo. 


[1] Antropocêntrico como prioridade humana sobre as espécies não-humanas.
[2] Uso o termo “vegetariana” ao invés de “vegana” por considerar que a maioria das pessoas adota, primeiro, a dieta sem carne, mas ainda consome os derivados animais.
[3] Lembrando que o termo “evolução” é equivocadamente utilizado como sinônimo de progresso pela maioria das pessoas, o que me faz discordar deste argumento com relação à dieta.
   

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